
Durante mais de setenta anos, colecionadores de relógios chamaram certo modelo da Rolex de Padellone, frigideira em italiano. O apelido nasceu da referência 8171, um relógio de calendário completo lançado em 1949, de caixa larga e achatada para os padrões da época, formato que lembrava o utensílio, com mostrador levemente abaulado.
A peça saiu de linha nos anos 1950 e poderia ter ficado esquecida. Foram os colecionadores que a transformaram, décadas depois, em objeto de culto.
Em setembro, a Rolex fez algo que raramente faz: adotou o apelido como nome oficial de um produto novo, o Perpetual Padellone, apresentado em Milão, fora do calendário habitual de lançamentos da marca.

O gesto fala, antes de tudo, sobre a forma como o desejo se constrói: o valor dessa referência nasceu nas conversas entre colecionadores, nas páginas das publicações especializadas e nos leilões, e a marca apenas reconheceu, oficialmente, o nome que o público já havia dado.
O novo relógio também tem méritos próprios. É o primeiro Rolex em mais de setenta anos a reunir dia, data, mês e fase da lua em um mesmo mostrador, segundo a imprensa especializada internacional.
A marca descreve o conjunto como uma janela para o céu noturno: um disco de esmalte azul gira a cada 29,5 dias, acompanhando o ciclo lunar, e as luas cheia e nova são recortadas em meteorito, material que veio do espaço e parou no mostrador. Poucos detalhes, nas grandes casas, carregam uma poética tão simples.

O relógio chega em três versões, em ouro Everose ou platina 950, com preços internacionais entre US$ 59 mil e US$ 72 mil, segundo a Robb Report, e valores no Brasil anunciados entre R$ 481,1 mil e R$ 594 mil pela imprensa financeira.
Os exemplares antigos da 8171, por sua vez, registraram leilões recentes entre US$ 89,6 mil e US$ 635 mil, de acordo com dados de mercado citados por veículos especializados, o que dá a dimensão de quanto vale, também em dinheiro, o nome que os colecionadores construíram.

Ao batizar o novo relógio com o nome dado pelo público, a Rolex reconheceu algo que sempre soube em silêncio: o valor de uma referência se constrói na comunidade que a ama e a historiciza.
O Perpetual Padellone ganha nova engenharia, incorporando, do original, sobretudo o afeto que se formou em torno dele.