Mesa lateral Cogumelo em quartzito Abstrato. Foto: D.ela Studio.

A luz incide sobre o veio e revela a marca do tempo gravada na pedra ao longo de milhões de anos. Em uma mesa lateral, o quartzito desenha uma paisagem abstrata que foi esculpida pela própria natureza. A sala ganhou uma presença singular e poderosa: a peça é única, irrepetível, brasileira. E nasceu de um rejeito que a indústria descartaria sem hesitar.

Quem olha para essa mesa dificilmente imagina que tudo começou com um inconformismo. Patrícia Cecato passou 25 anos em cargos de gestão na Litoral Stones, uma das referências do setor de rochas ornamentais no país.

Conviveu diariamente com pedras extraordinárias e, ao mesmo tempo, com aquilo que o processo industrial deixava para trás. Rejeitos brutos, fragmentos irregulares, materiais que não encontravam destino comercial e seguiam para o descarte sem nenhum tipo de aproveitamento. Patrícia observava esse desperdício e sentia um desconforto crescente.

A inquietação entre o que sentia e o que via no chão da indústria foi tomando forma até se converter em ação. No final de 2022, abandonou a estabilidade de uma carreira de duas décadas e meia no mesmo grupo familiar e abriu o D.ela Studio.

O propósito era claro: ressignificar materiais que não tinham futuro na indústria comercial de rochas, transformando-os em algo que fosse capaz de tocar o coração das pessoas.

A decisão não veio sem questionamentos. Hoje, olhando para o conjunto de obras que já produziu e para a forma como seu trabalho passou a ser reconhecido, fica claro que a aposta valeu.

Patrícia com mesa lateral Cogumelo. Foto: Rafael Fernandes.
Obra Stone Ice Cream. Foto: Hugo Boniolo.

Entre as pedras que compõem o acervo do estúdio, duas ocupam lugar especial. O Quartzito Abstrato é a pedra mais vendida e uma das favoritas de Patrícia. O Vivid Green, um quartzito verde que ela conhece desde a época da Litoral Stones, é outra. 

Sua matéria-prima, porém, não se limita a essas duas. Trabalha exclusivamente com rochas exóticas e superexóticas, classificações comerciais usadas para identificar aquelas cuja formação natural fugiu do padrão esperado. 

Quando atividade vulcânica, ação de vento, sol e chuva alteram a composição de um mármore, um quartzito ou um granito, o resultado visual escapa do esperado. Surgem cores improváveis, veios que se movem em direções inesperadas, cristais que se formam em cavidades ocultas. 

O prefixo “super” indica o grau máximo dessa raridade. As pedras mais incomuns e visualmente impactantes, dentro do que já é considerado exótico, ganham essa marca. E é justamente nessa imprevisibilidade que Patrícia encontra a base para o seu trabalho.

Detalhe de mesa em quartzito com cristais aparentes em cavidade natural. Foto: D.ela Studio.

A forma como ela escolhe as pedras é o que define o caráter autoral de cada peça. Seus olhos buscam as irregularidades raras, aquilo que o olhar industrial classificaria como defeito e descartaria, como pequenas trincas que revelam uma camada interna diferente, ou uma cavidade que abriga cristais em formação.

“O que muitas vezes é visto como defeito é, na verdade, um presente da natureza”, diz Patrícia. É nesse inesperado que ela encontra valor único, e é isso que mostra ao cliente como algo digno de ser destacado, não corrigido.

Um exemplo disso veio de uma placa de rocha que Patrícia avaliava para produzir uma mesa. Ao examinar o bloco, encontrou pequenas cavidades com formações naturais de cristal no interior. 

Em vez de cortar a pedra de forma a eliminar essas marcas, decidiu incorporá-las ao desenho do móvel. O resultado foi uma mesa onde as cavidades funcionam como janelas para o veio de cristal no interior da rocha. 

Mesa lateral Cogumelo em quartzito com cristais aparentes em cavidade natural. Foto: D.ela Studio.

Cada peça é feita à mão, em baixa escala, com produção própria e inspeção individual. O desenho de Patrícia já começa a ser reconhecido pelo público: muitas pessoas sabem olhar para uma peça e identificar que é de sua autoria. 

Depois de dois anos de trabalho com mobiliário e adornos no D.ela Studio, a constante inquietação de Patrícia a fez olhar para outro subproduto do próprio ateliê: o pó de pedra. 

Em vez de descartá-lo, transformou-o em matéria-prima para uma nova frente de trabalho. Nasceu assim o Eco das Rochas, voltado para telas e esculturas que utilizam o pó das pedras, a própria pedra bruta, a argila e o seu propósito humano.

“É a montanha que virou pó e, de alguma forma, se solidifica novamente através da arte”, define. A frase sintetiza o ciclo completo do seu trabalho. A rocha extraída da terra vira peça funcional no D.ela Studio. O pó que sobra dessa peça vira pigmento para as telas do Eco das Rochas. 

Patrícia em seu ateliê com pó de pedra. Foto: Rafael Fernandes.

Nada se perde. Um trabalho é resultado do outro, literalmente. “Convivem design, arte, técnica, quebra da técnica e expressão”, afirma. Para Patrícia, o mobiliário autoral é arte tanto quanto uma escultura ou uma tela. A diferença está na função, não na intenção.

O propósito humano, pilar fundamental desse processo, carrega a influência das práticas de yoga de Patrícia, que é instrutora e incorpora essa vivência no conceito de suas obras, especialmente nas esculturas. 

Questões sociais, contemporâneas e humanas atravessam as peças, que falam sobre tempo, impermanência e transformação. Essa dimensão filosófica não aparece como enfeite. É parte do material, tão presente quanto o pó, a pedra e a argila.

Obra “Luise: força e conexão”. Foto: D.ela Studio.
Obras “Florescer-se” e “Expressar-se”. Foto: Hugo Boniolo.

O atendimento ao cliente é onde todo esse universo se converte em experiência pessoal. Sempre que pode, Patrícia visita a casa de quem encomenda uma peça, conhece as pessoas, observa o espaço e ouve o que têm a dizer. 

A partir desse encontro, personaliza a escolha da rocha e, quando sente que há abertura, propõe caminhos que, por vezes, diferem do que o cliente imaginava inicialmente. Quase sempre, o que nasce desse processo supera a ideia original.

Durante os aproximadamente 60 dias que cada peça leva para ficar pronta, ela envia fotos do processo para que o cliente acompanhe a criação passo a passo, veja a pedra bruta ganhando forma e participe da decisão em momentos-chave.

Patrícia parte do princípio de que há uma enorme diferença entre entrar em uma loja e escolher uma peça pronta porque achou bonita, e vivenciar o processo de tê-la concebida a partir de quem você é e do espaço que você habita. 

No primeiro caso, a relação com o objeto é estética e instantânea. No segundo, a relação é afetiva e permanente: carrega a memória da conversa, da visita, da escolha, da espera. “A peça deixa de ser apenas um objeto dentro de um espaço. Ela passa a pertencer àquela história”, diz. Essa transformação da jornada de compra em jornada criativa é o que diferencia o trabalho dela de qualquer vitrine.

Obra “Luis: Um homenagem ao empreendedor brasileiro”. Foto: D.ela Studio.

Nos quase quatro anos de funcionamento do estúdio, Patrícia nunca atrasou uma encomenda. Prefere prometer um prazo seguro e entregar antes a precisar justificar atraso. É uma postura que reflete o cuidado com cada etapa e o respeito por quem confia no trabalho dela.

“Tudo precisa gerar conexão. Talvez essa seja a palavra máxima do meu trabalho”, diz Patrícia. É um exercício de escuta: escutar a pedra, escutar quem encomenda, escutar o que o material tem a dizer quando encontra alguém disposta a ouvir.

Quando o cliente está com o coração e a casa abertos para a artista entrar, como ela mesma descreve, o resultado é o oásis onde matéria e sensação finalmente se encontram.

Obra “Luis: Um homenagem ao empreendedor brasileiro”. Foto: Hugo Boniolo.
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